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O homem de 39 anos que está na minha frente, devorando um prato enigmaticamente sem verduras, emoldurado pelas folhagens e pelo silêncio do Jardim Botânico de São Paulo, é o mesmo – e definitivamente não é o mesmo – que conheci pelas ruas da zona sul da cidade, ele da Vila Moraes, eu, jovem jornalista do outro lado da Av. Tancredo Neves, no Jardim da Saúde. Luciano dos Santos Souza era então o mano anônimo que interpretara um pastor na introdução do hoje histórico show dos Racionais MC's no Video Music Brasil da MTV em 1998 e vendia pessoalmente os CDs de seu grupo de rap, Apocalipse 16, no centro velho da cidade. Dezessete anos depois, Luciano é Pregador Luo, nome respeitado na cultura black brasileira e na cultura hip hop, inventor do rap-gospel nacional e estrela de primeira grandeza na constelação que se convencionou chamar de música cristã brasileira. Depois de admiráveis 14 álbuns autoproduzidos de forma independente, Luo prepara-se para lançar Governe!, o primeiro álbum por uma multinacional do disco, a Universal Music.

Uma leitura mais apressada pode intuir que a mensagem por trás do disco é do controle artístico por trás desse 15º álbum, da inalienação e das convicções mantidas na passagem às vezes traumática da independência para o mainstream. De fato, quem governa, artisticamente, ao longo das 20 novas músicas é Luo, com a mesma autoridade com que governou em seus outros trabalhos – seja quando achava por bem denominar-se Apocalipse 16, APC 16, Luo, Pregador Luo & Apocalipse 16 ou, como agora, Pregador Luo. Todas as 20 faixas são de sua autoria, assim como a direção musical, artística e o conceito gráfico. Apesar de todo seu histórico de parcerias (Rappin’ Hood, Xis, Adhemar de Campos, Raiz Coral, Simoninha, Templo Soul, Edi Rock, Chorão, Emicida, a lista é longa), Luo optou por ser a única voz a ser ouvida ao longo do álbum. Entretanto, enquanto converso com o rapper (que também canta feito cantor, de forma melódica e segura ao longo de todo o disco), fica claro que não é sobre isso o uso imperativo do verbo governar.

A intercessão em que Luo se encontra não é entre ser profissional liberal ou empregado de multinacional. Tampouco sobre provar-se autossuficiente, como se já não houvesse provado o bastante, em seu impressionante ritmo de produção. A partir de Testemunhe, o primeiro single lançado em março, em alta rotação na web e nas rádios especializadas, fica claro que a mensagem de governança é espiritual. Tem tanto a ver com a doutrina do livre arbítrio – segundo a qual todo homem é capaz de escolher entre opções que se apresentam diante dele – como também tem a ver com uma recusa em assumir para si qualquer papel mercadológico que lhe pudessem impor, seja vindo do interessante circuito gospel ou do sedutor mercado 'secular', opções onde Luo tem impressionante trânsito e respeito. A mensagem do pregador é simples: preste atenção nos caminhos que existem diante de você; não se deixe levar pela cultura a seu redor; não transfira para o diabo, para os políticos ou para os líderes religiosos as decisões que são suas: GOVERNE.

(O dedo em riste na capa do disco, portanto, não é o do orador impondo verdades, mas o do líder apontando caminhos – caminho, aliás, no singular, o caminho do alto).

Musicalmente, Governe! continua do ponto de abertura em que parou Único/Incomparável (2012) seu mais recente trabalho, quando Luo definitivamente ampliou seu leque de referências e mostrou intimidade com praticamente qualquer gênero urbano de matriz negra. Daí surge o pancadão santo de 'Blindadão', o R&B moderno (dançante como 'Assuma o controle' ou relacional como em 'Coração é frágil'), o funk clássico (pendendo para a soul de 'Andei vagando' ou para o electro 'Rolê da consciência' e 'Muita bênção'), indo até o reggae (Derrubando muralhas) e chegando ao R&B pop mais moderno (Em tudo está (Salmo 139). Sem se esquecer, naturalmente, do rap old-school, como o de 'Tem que ser mais ousado', 'Não vou deixar', 'Pai Nosso (venha o teu reino)' e 'Faça o bem'.

Liricamente, entretanto, Governe! faz movimento oposto e volta-se para dentro, para o mais íntimo do ser humano de qualquer classe social, target musical, cor ou tradição religiosa. É, de longe, o disco mais existencial e humano de Luo – em se considerando que 'humanidade', como diz o pastor americano Erwan McManus, rima com 'espiritualidade' como o maior traço distintivo do ser humano em relação aos outros animais.

É o desafio de um homem, não mais um menino, de manter-se com o 'corpo grande e o espírito gigante', como canta em 'Marfim'. E é o desafio de todos nós. É um recomeço para o Pregador Luo, um cidadão com consciência plena de tudo o que já percorreu, mas perfeitamente convicto do lugar aonde vai chegar.

Release por Ricardo Alexandre

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